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Projeto de Lei Apresentado Pela Loja "América" ao Grande Oriente do Brasil
 
RESENHA
Coluna publicada no jornal "Folha da Noite" do dia 13 de maio de 1932

Nesta coluna, aqui reproduzida, verificamos a longevidade da memória dos atos de abolicionistas oriundos da Loja "América", especialmente seu Venerável Mestre Luís Gama e o "revolucionário" Antônio Bento.

Sob o patrocínio da "Frente Negra Brasileira", à grande data de hoje foram reservadas estas homenagens:

Missa, na igreja de Nossa Senhora dos Remedios, às 7 horas, em ação de graças pela alleluia, pela resurreição triumphal da raça. Após a missa, concentração geral na sedee central da "Frente Negra Brasileira", à rua da Liberdade, n. 196, até as 9 horas.

Visita tradicional ao túmulo de Luiz Gamma, José Bonifacio, o Moço, Antonio Bento, na necrópole da Consolação. Canto do Hymno da Gente Negra.

À noite no seu salão nobre, a "Frente Negra Brasileira" inaugurará solene e festivamente um retrato de José do Patrocinio, trabalho valioso em "crayon" do artista negro Olavo Xavier.

- O jogo que annualmente faz parte das commemorações, entre os quadros Branco e Preto, fica adiado para o dia 25.
Vicente Ferreira não se deixa abater pelas conseqüêencias duras da vida. O seu ideal caminha sempre, apesar das dificuldades, tão communs a todos aqueles que estão voltados para as lutas e as injustiças do mundo.

Hoje, dia 13, a palavra de Vicente mais se torna expressiva. Ele é mesmo uma porção das torturas de ingratidão, do esquecimento, factores esses pelos quaes a terra tem desanimado a evolução da raça negra.

Por conseguinte, quando se trata de uma data que é a data máxima da historia dos escravos brasileiros, a voz do popular orador merce ser ouvida. Já pela sinceridade dos seus argumentos como em virtude da concepção pela qual procura explicar as razões da "Frente Negra", assim é que, em conversa conosco, Vicente Ferreira nos disse o seguinte:

- A "Frente Negra Brasileira" sociedade oraganizada com os altos fins de propagar o levantamento moral e intellectual da raça negra, está desenvolvendo esse programa no mais alto sentido, que corresponda ao ponto de vista histórico que a raç negra tem dentro da formação da nossa Pátria. Assim, é pois, o critério que almejamos nesse trabalho hercúleo, porquanto, apesar da sinceridade com que a obra vem sendo desenvolvida, ainda assim encontramos muitos elementos da propria raça, que, por sugestões malignas, se desviam de acompanhar esta hora do Brasil, de transformações e reajustamentos, tão brilhante prevista pelo grande sociólogo Alberto Torres no programma da organização brasileira, onde este escriptor estuda, de maneira profunda, o trabalho e a obra orgânica da raça negra, em quatro séculos de actuação na nossa Pátria.

Assim é que vamos palmilhando esse árido caminho, mesmo com ápodos e doestos de muitos dos nossos irmãos que não querem entender este momento supremo, revelado pela boa-vontade de uma massa aflita que procura incorporar-se em todo o campo de actividade da nossa Pátria, para os netos dos africanos que somos nás, filhos dos primeiros brasileiros, deixarmos um atestado varonil do nosso presente, como os nossos avó escravisados, e derramando lágrimas e sangue, fizeram no passado.

A "Frente Negra" é um reduto de combate e de organização. A raça negra se propôs trabalhar com o mesmo denodo para a grandeza do Brasil na mais alta espiritualização em que possamos chegar quando a família-negra estiver organizada no sentido moral, politico, religioso e econômico.

Nós, os filhos da raça que sempre acompanhou o Brasil nos lances de vitória e nos sofrimentos, temos o máximo orgulho de contribuir para essa marcha do crescimento desta grande Pátria, embora mesmo, observando os juízos temerários que muitos autores fazem a propósito da finalidade que almejamos. Iremos, aos poucos, trabalhando e agremiando a nossa raç para desmentir o critério de muitos escritores estrangeiros, que levantam preliminares falsas em torno da raç que ajudou a construir o Brasil, e, assim, na data de hoje, que é uma recordação da liberdade, em parte outorgada ao negro, nós estamos de pé na senda gloriosa dessa jornada infinda, que nã será ainda, talvez, para esta geração, mas continuaremos na brecha aberta por Patrocinio, Ruy Barbosa, Luis Gama e Castro Alves, enfim, todos os grandes que cooperaram na obra da abolição, procurando corresponder pelo respeito à nossa bandeira e à nossa Pátria, o respeito que a raça conquistará no seio dos seus irmãos brancos pela cultura moral, intelectual e profissional, fazendo dos elementos negros núcleos de força econômica, espiritualizando a família negra no grande amor e respeito às grandes tradições da nossa terra. São estas as esperançãs em que a minha raça vai aparecer aos olhos da Paulicéia, visitando os túmulos dos grandes pregoeiros da sua liberdade, numa expressão de carinho e de infinito amor".



   
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